sábado, 14 de junho de 2008

Tradições-A nossa Cultura por anda!

Segundo a nossa Constituição todos os Portugueses têm direito à liberdade de criação intelectual e artística, bem como, o direito ao acesso e fruição cultural. Ao Estado compete-lhes garantir a democratização da cultura, incentivar iniciativas de criação individual e colectivas e promover e salvaguardar a valorização do nosso património cultural.

É nesta vertente que as Autarquias devem desenvolver projectos para que haja uma política cultural e democrática, assentes no exercício dos direitos e no reconhecimento das necessidades, aptidões e aspirações do Povo.

A política cultural de uma Autarquia deve dirigir-se essencialmente a todos os Municipes, independentemente da idade ou sexo, na perspectiva de acesso e fruição cultural, quer através da criação de dinâmicas de centralidade na área da cultura, quer através da descentralização de iniciativas.

Infelizmente a nova Lei das Finanças Locais coloca ainda mais restrições à capacidade de investimento e de iniciativas dos Municipios. Coloca em causa a autonomia do Poder Local democrático e cria graves dificuldades na concretização dos eventuais projectos. Apesar destas dificuldades, as Autarquias devem continuar a trabalhar no sentido de investir na cultura, na educação, no desporto, como vertentes essenciais na melhoria das qualidades de vida das populações no sentido de um desenvolvimento harmonioso e equilibrado.

A nossa Câmara Municipal tem desenvolvido muitas actividades culturais e desportivas interessantes, designadamente através da Música, Teatro, Exposições temáticas, Gastronomia, Desfiles Etnográficos e outros eventos. A verdade é que estas promoções culturais são uma amostra de parte do nosso tão rico património cultural.

Se concordamos com a maioria das acções implementadas, há também algumas que discordamos totalmente por colidirem com a génese da cultura popular dos Campomaiorenses e nesta situação está as denominadas Varandas de São João.

Para este ano estão de novo programadas. Contrariamente ao que foi afirmado pelo Presidente João Burrica no programa de 2007, as Varandas de São João não são, nem nuncam foram, uma tradição cultural dos Campomaiorenses e nem fazem parte dos nossos usos e costumes.

É bom lembrar o Senhor Presidente da Câmara, que a mais importante das nossas tradições, do nosso património cultural, são as Festas do Povo, são estas a maior expressão sócio/cultural de cariz comunitário, únicas em Portugal e quiçá da Europa. As Festas do Povo só têm lugar quando o Povo quer, nunca podem nem devem ser impostas. Ao longo dos anos, muito escrevi sobre as nossas Festas e sempre afirmei que são um simbolo vivo da nossa Cultura e constituem um verdadeiro manual das nossas tradições, dos nossos usos e costumes e da nossa hospitalidade, as Varandas de São João nunca fizeram parte da nossa História colectiva.

Quer em 2006, quer em 2007, as Varandas de São João não tiveram uma participação massiva, o Povo não aderiu e a prova é que só foram ornamentadas cerca de 75 janelas, das quais 62 se situavam no casco histórico da Vila. Foram uma desilusão para as centenas de turistas que nos visitaram, enganados por publicidade enganosa inserta no site da Câmara publicitado na Internet.

É importante salientar que ao longo daquela semana houve imensas actividades que mereceram, por parte do povo, uma enorme adesão. Os Bailes com o Grupo de Saias são o exemplo e não podemos esquecer que as Saias são uma das nossas mais prestigiadas tradições, os seus acordes melodiosos são fruto de uma expressão artística que herdamos dos nossos antepassados. Sâo estas tradições (Festas do Povo, Saias e Usos e Costumes) que devemos preservar e incentivar nos mais Jovens, a necessidade de lhes darem continuidade, sob pena de o não fazerem, estas diluirem-se no tempo.

As Varandas de São João e tudo o que se pretenda inventar, é um desprestigio e uma forma chocante de adulterar a nossa Cultura.

Aproxima-se 2009, passaram quase quatro anos sobre as últimas Festas do Povo, é preciso começar a pensar se vão ou não realizar-se as Festas, a Câmara deveria auscultar a população sobre este tema, mas ao fazê-lo deverá ter em conta que, por ser ano eleitoral,não irá politizar o evento e tirar dividendos politicos. As Festas do Povo deveriam ser uma realidade de 2009, haja quem pegue nelas e trabalhem para o bem de Campo Maior.

Campo Maior, 14 de Junho de 2008

siripipi-alentejano

1 comentário:

cravo disse...

Infelizmente, parece que as Festas do Povo estão esquecidas pelos responsáveis autárquicos.
Concordo com a sua análise no que respeita às Varandas a S. João, as quais têm sido um autêntico fiasco e não me parece que este ano venham a ser melhores. São um sucedâneo fraquissímo das Festas do Povo e sem qualquer interesse.
A falta de iniciativa da autarquia, no sentido de preservar as verdadeiras tradições da terra, está a fazer com que outras vilas e cidades tenham uma visibilidade quando promovem festas que se aproximam muito das características das Festas do Povo. Ainda hoje apareceu numa das televisões uma inciativa dos comerciantes de Portalegre que cobriram as ruas com "tectos" de flores de papel, com o objectivo de atrair clientes.
É com tristeza que se constata que outros fazem o que aqui não há capacidade ou vontade para fazer.
Em vez disso, teremos em Agosto/Setembro, os grupos ditos folclóricos, alguns de muito pouca qualidade, com os mesmos trajes e as mesmas cantigas de há dois anos a esta parte.